Sem nenhum aviso prévio, desde o dia 14 de janeiro, o SBTcortou seu sinal digital para os telespectadores que captam sua programação através de antenas parabólicas pelo país, principalmente aqueles que residem no interior e na área rural.

Por trás dessa decisão, existiria uma guerra com os fabricantes dos equipamentos para conseguir a cobrança de um "pedágio" para carregarem a grade do canal em alta definição. Atualmente, somente pessoas que possuem os receptores analógicos - que vem perdendo mercado após a criação da transmissão HD - conseguem assistir à programação nacional do SBT. Porém, com qualidade de sinal SD (standard - 420 linhas de resolução), de baixa qualidade, através do satélite StarOne C2.

O SBT estaria de olho no negócio criado pela Globo, que implantou o sistema SAT HD regional nas parabólicas digitais. O projeto funciona da seguinte forma: quando o usuário compra o kit da antena (parabólica + receptor digital), ele recebe um cartão de acesso à Globo HD, canal codificado via satélite, para ser ativado. Feito isso, é liberado o sinal regional em HD (1080 linhas) da emissora no estado em que foi cadastrado pelo dono do kit.

Para produzir aparelhos compatíveis com esse sistema, os fabricantes de parabólicas precisaram adquirir uma licença da Globo. Todos os outros canais brasileiros, dentre eles RedeTV!, Record TV, Band e SBT, não têm nenhum retorno financeiro por terem seus sinais em alta definição carregados pelos receptores digitais.

Além disso, a programação regional acaba perdendo penetração dentro do interior de alguns estados, já que acaba sendo captado nas parabólicas o sinal nacional, na maioria feita em São Paulo. Uma reclamação antiga da área comercial das afiliadas.

A atitude do SBT pegou fabricantes e telespectadores das antenas parabólicas de surpresa. O NaTelinha apurou que existe uma conversa na tentativa de criar uma compensação financeira para a emissora liberar o carregamento do seu sinal em alta definição pelas parabólicas, como um pedágio.

Enquanto isso não acontece, uma parcela dos 26,9% dos domicílios brasileiros que assistem televisão através da recepção de uma antena parabólica, de acordo com números divulgados em dezembro de 2018 pelo IBGE, não conseguem ver a grade do SBT. Deste total, 70,5% corresponde a população da zona rural. Isso significa um mercado de cerca de 26,7 milhões de residências.

A reportagem conversou com a área técnica da empresa Elsys, uma das três principais fabricantes de parabólicas do país, que tem sede na cidade de Valinhos, em São Paulo. Ao site, foi explicado que quem compra o kit de acesso via satélite assiste hoje em torno de 35 canais e afirmou que a atitude de cortar o sinal HD das parabólicas partiu exclusivamente do SBT.

Com 64 anos atuando no mercado de parabólicas, a fabricante Century emitiu um comunicado em seu site sobre o imbróglio com a emissora de Silvio Santos.

"Todos os canais de televisão, sejam eles transmitidos por satélite ou via terrestre, são de responsabilidade de cada emissora. O SBT, por decisão própria, retirou seu sinal digital do satélite StarOne C2. Há que se destacar que, como fabricante de receptores, não temos gestão ou qualquer outro recurso que possa retomar tal decisão. No cenário atual, a única forma de ter de volta o sinal digital do SBT nas parabólicas será única e exclusivamente por decisão da emissora", disse.

Por outro lado, no site do SBT, o canal colocou o seguinte aviso: "Caso você esteja com problemas para sintonizar o sinal No mercado, esta mensagem no site do SBT está sendo visto como uma forma de pressionar o andamento das negociações entre a emissora e as fabricantes de parabólicas.

Essa situação gerou reclamação até em sites especializados, como o Reclame Aqui. "Já faz uns dias que o sinal digital da emissora foi cancelado nas parabólicas. A Century informou que a decisão partiu da emissora e que não pode fazer nada. Espero que o SBT resolva essa situação, enquanto todas as outras emissoras fornecem um serviço excelente, o SBT está deixando a desejar", escreveu um usuário, não identificado, da cidade de Pedra, Pernambuco, em 27 de janeiro deste ano. A reclamação não obteve resposta da emissora.

O portal NaTelinha vem a uma semana cobrando uma posição oficial do SBT sobre o corte do sinal nas parabólicas digitais e sua tentativa de remuneração. Porém, até a publicação desta matéria, não obteve uma resposta.

Este problema entre o SBT com os fabricantes de receptores via satélite se assemelha com o embate que a Simba, joint-venture formada pela emissora de Silvio Santos juntamente com Record TV e RedeTV!, teve com as empresas de TV paga em 2017.

No acordo assinado em agosto daquele ano, os canais abertos passaram a receber uma porcentagem para terem seus sinais de alta definição carregados nos line-ups das empresas de televisão por assinatura.